Segundo estimativas do Governo britânico, 700 mil pessoas morrem ao ano por causa de infecções. Entre 2015 e 2020, é possível que o número de mortos devido a consequências de infecções causadas pelas chamadas “superbactérias” chegue a 2,4 milhões, como mostra uma estimativa da OCDE. Os dados foram divulgados pelo jornal Folha de S. Paulo.

O mesmo portal divulgou também que, segundo uma estimativa americana, 20 a 50% dos tratamentos com antibióticos nos EUA são desnecessários ou incorretos. Mas você sabe o que são as “superbactérias”?

Antes de partirmos para o nosso artigo, esclarecemos que, tecnicamente, o termo “superbactéria” não é correto. Na comunidade científica, essas bactérias são chamadas de multirresistentes. Para fins práticos e para melhorar a acessibilidade de nosso conteúdo, porém, adotamos o termo “superbactéria” em nosso artigo, entre aspas.

Vamos descobrir como a indústria está lidando com esses micro-organismos resistentes e como eles surgem? Acompanhe!

O que são as superbactérias?

As bactérias multirresistentes ou “superbactérias” são aquelas capazes de resistir aos mais modernos antibióticos. A primeira assim denominada foi a KPC (Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase), que desenvolveu resistência a medicamentos variados, como os carbapenêmicos.

Embora o termo “superbactéria” já não seja tecnicamente correto, ele define satisfatoriamente a origem desses micro-organismos. Afinal, quando os antibióticos são usados de maneira inadequada, eles provocam uma seleção de bactérias mais resistentes em um processo perigoso. Basicamente, as bactérias que sobrevivem aos antibióticos geram outras que também são resistentes (conhecidas como multirresistentes).

Apesar de serem muito perigosas, as “superbactérias” não apresentam risco de pandemia, pois raramente causam doenças em pessoas saudáveis — ou seja, os micro-organismos multirresistentes são seres oportunistas.

Mal uso de antibióticos e o surgimento das superbactérias

A imunidade de micro-organismos a certos antibióticos não é exatamente uma novidade. Desde a descoberta da penicilina, em 1928, a comunidade científica tem ciência dessas espécies. Em geral, esses micróbios degradam ou têm meios de se livrar das moléculas agressoras.

O problema é que, se os antibióticos são mal aplicados, eles destroem as bactérias que não teriam tanto poder assim. Sobram apenas as que são bastante resistentes, o que gera, por consequência, infecções difíceis de combater com os recursos farmacológicos que temos hoje.

Alguns hospitais já têm recorrido a estratégias para evitar a proliferação de “superbactérias”. Nesses ambientes, o consumo de antibióticos é muito alto, sendo que eles são bastante favoráveis a infecções multirresistentes.

A Santa Casa de Santos, por exemplo, reduziu o tempo de internação dos pacientes. Isso não significa que eles estejam ganhando alta mais depressa, pois a alta hospitalar não é alta médica. Essa desospitalização é assistida, de modo que os processos sejam conduzidos com qualidade e segurança.

Com parceria da prefeitura, o hospital leva a medicação a domicílio para os pacientes, se necessário. Dessa forma, desde o ano em que foi implementada, 2017, a medida já economizou mais de mil dias de UTI, abrindo vagas para outras pessoas.

Outras medidas também são bem-vindas. Ao fazer a gestão de antibióticos (“stewardship”, em inglês), é preciso considerar as especificidades do país e do lugar. Assim, ao preparar o corpo clínico do hospital, é preciso informá-lo sobre a realidade microbiológica do local e quais as melhores opções terapêuticas para os pacientes. Para ajudar nessa tarefa, alguns hospitais criam comissões de controle de infecções hospitalares.

A cada seis meses ou um ano, as equipes hospitalares também precisam fazer um inventário dos patógenos presentes no hospital e entender o perfil e resistência deles. Graças a medidas como essas, o hospital HCor, conforme informado à Folha, reduziu em 20% o uso de antibióticos e em 25%, de antifúngicos.

Ações como essas podem ser implementadas com o auxílio de farmacêuticas, que têm expertise para conduzir programas de stewardship, construir laboratórios de microbiologia e treinar a equipe de profissionais de saúde.

Quais são os novos antibióticos para superbactérias?

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem aprovado alguns medicamentos para lidar com o problema causado pelos micro-organismos resistentes. Em 2018, ela autorizou o ceftolozana-tazobactam, cujo nome comercial é Zerbaxa, para o tratamento de infecções causadas por bactérias resistentes a antibióticos. Esse medicamento, fabricado pela MSD, é de uso hospitalar e indicado para o tratamento de infecções intra-abdominais e as do trato urinário.

Entre as bactérias combatidas pelo Zerbaxa está a Pseudomonas aeruginosa, considerada como uma das três mais resistentes, como informa uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde, divulgada em um portal especializado. A notícia trouxe entusiasmo para a comunidade médica, já que 40% dos casos de infecção por Pseudomonas aeruginosa detectados em nosso país apresentam resistência aos remédios. A bactéria é especialmente comum em UTI’s.

No mesmo ano, a Anvisa também aprovou o Torgena (avibactam + ceftazidima), indicado para pacientes adultos que tenham infecção intra-abdominal complicada, infecção do trato urinário acentuada e pneumonia adquirida no hospital (incluindo os casos associados à ventilação mecânica).

O Torgena é especialmente indicado para bactérias como Pseudomonas aeruginosaKlebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase (KPC) e as enterobactérias produtoras de ESBL (β-lactamases de espectro estendido).

Conhecimentos multidisciplinares no combate aos micro-organismos resistentes

Para combater os micro-organismos multirresistentes, a indústria farmacêutica, as instituições de saúde, governos e especialistas em tecnologia têm se unido em torno de práticas e recursos.

Em dezembro de 2018, a agência publicou regras para a interpretação de testes de sensibilidade a antibióticos, que são essenciais na escolha do melhor tratamento. A orientação é que os profissionais responsáveis optem sempre pela estratégia mais branda possível para exterminar os micro-organismos. A agência também indica que as receitas de antibióticos fiquem retidas nas farmácias para que o uso indiscriminado desses medicamentos seja coibido.

Há também medidas eficazes para o momento da compra do medicamento. Desde 2010, o Governo Federal determina a obrigatoriedade do uso de uma receita especial em duas vias para a compra de antibióticos. Com isso, evitamos a compra indiscriminada de remédios sem que haja prescrição médica para tal.

Mecanismos de rastreamento são cruciais para manutenção dessa política, pois a venda de antibióticos é acompanhada pela Anvisa e pelas vigilâncias sanitárias dos municípios e estados. Semanalmente, as farmácias precisam informar todas as aquisições e vendas de antibióticos.

Ainda não há medidas sistematizadas para o uso de antibióticos em animais destinados à alimentação. O uso incorreto desses medicamentos na ração pode causar efeitos piores na proliferação de “superbactérias”, pois os medicamentos são ministrados em subdose, o que favorece a seleção das bactérias mais resistentes.

O uso indiscriminado de antibióticos é um dos principais causadores do surgimento de micro-organismos resistentes, também conhecidos como “superbactérias”. Por isso, a Anvisa já autorizou a aplicação de medicamentos mais eficientes no combate a essas bactérias. Além disso, hospitais, indústrias e governos têm se unido em torno de medidas para que os medicamentos sejam ministrados de maneira mais responsável e o controle de infecções em hospitais seja mais eficiente.

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