Desenvolver produtos voltados para o equilíbrio das bactérias saudáveis do nosso corpo é uma prática comum na indústria de alimentos. Porém, para a indústria de cosmético, esse é um novo nicho a ser explorado. Por isso, as novas pesquisas se voltam para a criação de formulações direcionadas à diversidade do microbioma da pele.

tendência é descobrir como restaurar o equilíbrio adequado da pele, cujo ecossistema é formado por bactérias boas e ruins (consideradas patogênicas) que vivem na superfície e em suas camadas mais internas.

Quer entender melhor a influência do microbioma e uma derme saudável? Então, acompanhe nosso post e conheça os desafios das indústrias no desenvolvimento de produtos relacionados a essa nova proposta!

Qual a relação entre microbioma e saúde da pele?

Nas camadas da pele habitam microrganismos em simbiose que têm a função de proteger nosso corpo. Quanto mais diversidade houver nesse ecossistema, mais saudável é a derme. Quando o equilíbrio da flora cutânea é abalado, podem surgir acnes, eczemas, dermatite atópica, psoríase, entre outros problemas.

“Temos várias bactérias que residem em nosso organismo: algumas que vêm para a pele e depois vão embora. Os estafilococos, por exemplo, falam que é do bem, que é uma bactéria que só faz bem, mas, se a gente tiver algum caso de resistência, seja por estresse ou por algum medicamento, esse microrganismo acaba se tornando um patógeno oportunista”, comenta Alberto Keidi Kurebayashi, farmacêutico bioquímico, conselheiro e ex-presidente da Associação Brasileira de Cosmetologia.

Desse modo, uma bactéria do bem, por conta de uma mudança fisiológica, acaba virando do mal e esse é o perigo do desbalanço da pele.

Quais os desafios da indústria cosmética nessa questão?

Entender como os cosméticos podem agir para não desequilibrar a flora cutânea é um dos desafios da indústria. “Você terá que fazer produtos biocompatíveis, cada vez mais suaves. Aliás, a própria categoria de pele sensível deveria ser abordada em todos os produtos para que você tenha os benefícios de cosméticos como emoliência, maciez e suavidade, mas não se esquecendo de entregar uma formulação biocompatível, principalmente no pH”, destaca Kurebayashi.

Já se sabe que os cosméticos com pH desbalanceado são danosos ao microbioma. “A história do sabonete que mata 99,9% é um conceito que já está fora, porque você está matando tudo, tanto as boas como as patogênicas, que são ruins. Hoje, o conceito é de equilibrar a sua flora. Você pode até limpar, mas limpar suavemente”, explica.

Porém, um grande mistério é saber se está certo trabalhar nesse método. “Vou entrar com um prebiótico, as bactérias vão comer, vão ficar forte, vão ganhar espaço e vou matar as patogênicas. Nem sempre o excesso é bom. Não adianta falar que só quer bactérias boas na pele. Precisamos do equilíbrio das boas e ruins para ter saúde e estímulo de formação de anticorpos”, diz o farmacêutico. “O organismo humano é um sistema perfeito”, resume.

Em produtos para microbioma, o primeiro ponto são as formulações equilibradas. Por exemplo: em produtos como loção hidratante, é necessário escolher o conservante correto, o mínimo que puder usar, ou o mais biocompatível e o uso de fragrâncias isentas de alergênicos.

Há inclusive a escolha da embalagem. “Se você está usando menos conservante, o produto é mais suscetível a se contaminar. Nesse caso, é melhor usar uma embalagem airless, que permite que o produto volte e não entre ar. É todo um conceito pensado, não é só na formulação, no ativo ou no creme que vai passar. É desde a escolha do ativo até a embalagem final”, salienta Kurebayashi.

Como são utilizados os simbióticos e pós-bióticos na indústria cosmética?

“A cosmética já trabalha com o prebiótico, que é um óleo que você coloca no produto cosmético e espera que as boas bactérias cresçam com isso. Em sabonetes íntimos, esse prebiótico colabora no equilíbrio e na melhora da flora vaginal, ou seja, trabalha a parte de acidez, reduzindo odor e irritação”, esclarece o farmacêutico.

O uso de simbióticos (prebiótico mais probióticos) na indústria ainda é complicado. “O prebiótico é um alimento que pode ser colocado no cosmético. Quando se fala de probiótico, que são os bichos vivos no creme, temos um problema, porque todos os produtos têm um conservante para proteger o cosmético durante seu prazo de validade”, explica Kurebayashi.

“Ao lançar um cosmético, é feito um teste chamado de challenge test e microbiológico para analisar o quanto o produto, o creme e a loção estão resistentes a alguma contaminação. Se a formulação tiver um probiótico, por exemplo, dará um falso positivo, uma presença de microrganismo. Se for seguir a legislação da Anvisa, o produto extrapola o número mínimo de unidades”, diz.

Segundo o farmacêutico, há algumas tecnologias como o probiótico liofilizado. “O bichinho está morto e vive encapsulado. Quando o produto estiver na pele, ele abre e atua. O que mais se tem visto atualmente no termo de simbióticos seria uma conjunção dessas duas tecnologias com o uso do prebiótico (alimento do bichinho) e, em vez de usar o probiótico, usaria o posbiótico, que pode ser resíduos da bactéria. Não é a bactéria viva, é uma parte dessa bactéria e isso tem demonstrado alguns efeitos em hidratação de pele”.

Como está a legislação para o desenvolvimento desse tipo de cosmético?

Para Kurebayashi, a Anvisa tem uma legislação muito boa se comparada globalmente. “Está harmonizada com a comunidade europeia e é muito coerente. Em termos de conceito e estudo de metagenômica, o Brasil está atualizado e não deve nada à Europa e aos Estados Unidos. Até por pressão das indústrias e do consumidor, a Anvisa está vendo que realmente precisa ter um direcionamento de como e até onde pode explorar esse conceito”.

Outro ponto é que as empresas não podem e não devem explorar benefícios que ainda não podem comprovar, como benefícios não tangíveis pelo consumidor, sendo que alguns deles acabam fugindo até mesmo da área cosmética. “Um creme que sara e é anti-inflamatório não é permitido na área cosmética”, alerta o farmacêutico.

Para resolver essas questões, a Associação Brasileira de Cosmetologia já iniciou uma discussão com a Anvisa para definir uma regulamentação sobre esses produtos.

Segundo Kurebayashi, o cosmético não está regulamentado, mas é um mercado em franca ascensão: “o que precisamos trabalhar juntos é essa parte de responsabilidade do fabricante de tal modo que ele tenha o desenvolvimento de um produto seguro, cosmeticamente sustentável“.

É necessário regulamentar esses cosméticos sobre o ponto de vista de proteção do consumidor. “Esse é o principal ‘guide’, não só de saúde e segurança, mas também de propaganda. Esse trabalho junto com a Anvisa é primordial para definir algumas diretrizes. Todas as empresas poderão atuar nesse segmento desde que sigam essas premissas de segurança, eficácia e transparência”, enfatiza o farmacêutico.

Cosméticos direcionados para o microbioma da pele são a grande tendência. Por isso, as indústrias já estão direcionando suas pesquisas para essa área. O complicador é ainda a falta de uma regulamentação específica, que já está em discussão para que seja possível nortear os trabalhos das empresas.

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